
Na onda dos movimentos populares, a multidão aglomerada alguma semanas atrás na rural Essex foi um modelo de biodiversividade: havia turbantes e camisetas, advogados e viajantes 'new-age', trancinhas juvenis e barbas grisalhas.
O que os unia era a oposição a uma tecnologia que, à primeira vista, deveria ser vista como algo bom: a produção de safras sob medida através da manipulação genética direta das plantas, em vez de confiar nos processos antigos e acidentais de elaboração de sementes híbridas e de seleção de genes específicos através do cultivo.
A modificação genética é uma maneira de inserir genes que conferem às plantas resistência às pragas, fungos e vírus que seriam nocivos ou exigiriam a aplicação de agrotóxicos. Os organismos geneticamente modificados (que estão se popularizando pela sigla GM, de 'genetically modified') também podem ser resistentes aos pesticidas, significando que as ervas daninhas podem ser facilmente exterminadas, informou a The Economist. Tudo isso eleva os rendimentos e deve (ao menos num livre mercado, o que é raro na agricultura) reduzir preços. No futuro, esperam os defensores da nova tecnologia, ela poderá também agregar valor nutricional às safras.
Ainda assim, apesar destes benefícios, os protestos contra a modificação genética estão aumentando, especialmente, mas não apenas, na Europa. As safras GM são impopulares e muitas pessoas simplesmente as odeiam. 'Minha única objeção aos alimentos transgênicos é que eles são inseguros, indesejados e desnecessários', disse um manifestante de Essex.
E, aparentemente, agora inevitáveis. Em 1990 não havia safras comerciais GM no Ocidente. Ao final deste ano, elas ocuparão uma área estimada de 40 milhões de hectares, segundo Clive James, diretor do international Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications. Muitas das plantações transgênicas (nem todas para alimentação) são de larga escala. Algumas, especialmente de uma variedade de soja resistente à ação dos herbicidas, são tão populares entre os fazendeiros que está ficando cada vez mais difícil encontrar a semente não GM.
Até agora, para utilizá-la, as fabricantes de alimentos precisam recorrer aos estoques antigos ou outras fontes, como o Brasil. Mas esse país também anunciou recentemente que permitirá a comercialização de certas safras transgênicas. Desta forma, une-se aos outros principais produtores que converteram-se à modificação genética: Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá, China e México.
Na Europa, contudo, as coisas são diferentes. Embora se façam experiências de campo em pequena escala em todos os estados membros da União Européia, só a Espanha possui plantações extensas de milho GM (a Europa sempre importou soja). Como prevenção, a lei permite que os países rejeitem colheitas GM já aprovadas pela Comissão Européia se tiverem novas evidências de risco à saúde; recentemente a França, Áustria e Luxemburgo exercitaram este direito e rejeitaram certos tipos de milho e óleo de semente de colza transgênicos.Mesmo que nove variedades de safras GM tenham sido importadas ou aprovadas para o plantio comercial na UE desde 1994, há tanta polêmica em torno dos transgênicos que novas espécies não foram adicionadas à lista desde o final do ano passado.
A rejeição oficial em boa parte da Europa é igualada pela resistência não oficial por parte dos consumidores. A objeções compreendem três alegações principais. A primeira raciocina que sendo a modificação genética antinatural é inerentemente detestável. A segunda afirma que o alimento é perigoso. E a terceira a acusa de prejudicar o ambiente.
Os defensores contestam o primeiro destes argumentos observando que todas as safras são antinaturais. Se não fossem, as pessoas estariam fazendo pão de matérias parecidas com grama e comendo saladas preparadas a partir de ervas daninhas. O segundo argumento cai, também. Nenhum teste cientifico reconhecido mostrou o menor sinal de que os alimentos transgênicos encontrados nas prateleiras contenham elementos tóxicos (um experimento de grande divulgação realizado em batatas no Reino Unido foi totalmente desacreditado). Afinal, o processo funciona pela transferência de genes isolados, designados para executar tarefas particulares, de uma espécie a outra. Se os produtos destes genes forem inofensivos (algo que pode e foi testado) é difícil imaginar como a saúde humana pode ser prejudicada.
A terceira objeção é mais consistente, embora hajam poucos dados a respeito. O possível dano ambiental inclui a 'fuga' de genes transplantados para espécies selvagens, lhes conferindo propriedades inseticidas ou de resistência aos herbicidas. Outro experimento de ampla divulgação, sobre as lagartas da borboleta Monarca, revelou um risco potencial para os insetos não-nocivos que alimentam-se do pólen de uma plantação com o gene inseticida. Há também o risco de que as safras que contenham inseticidas tornarão as próprias pragas mais resistentes a eles.
É precisamente para testar estes riscos que as experiências de campo, que atraem tantos grupos de protesto, estão sendo realizadas. Mas se for comprovado o dano ambiental, existem dois argumentos para equilibrar. O primeiro é que a agricultura é, por definição, destruidora do ambiente natural. Haveria um sério problema apenas se as safras GM fossem piores do que as atuais práticas agrícolas. O segundo é que ao menos algumas modificações genéticas devem ajudar mais do que prejudicar o ambiente. Se as safras contêm seus próprios inseticidas, a pulverização torna-se desnecessária. Isto significa que os insetos não visados, incluindo as borboletas, devem estar numa condição melhor.
Nada disto, contudo, parece acalmar o público - particularmente na Europa. A engenharia genética atraiu ativistas de muitas causas diferentes, do Greenpeace ao Christian Aid, em grande parte porque esta questão encaixa-se perfeitamente em outras agendas. Aqueles que eram contra, por exemplo, a industrialização da agricultura tradicional ou do controle corporativo da agricultura ou mesmo combatiam a construção de estradas em áreas rurais, já estavam lutando por seus princípios antes das safras GM. Para o consumidor médio, contudo, as objeções aos alimentos GM baseiam-se principalmente na suspeita de que eles irão, a longo prazo, provar ser insalubres.
Politicamente, tais temores são compreensíveis. Os governos europeus possuem um registro terrivelmente ruim de falta de provas, com dados científicos 'inconvenientes', ou de simplesmente mentir sobre a segurança do alimento. Depois das diversas experiências com a EEB (doença da vaca louca), a carne contaminada com bactérias e (mais recente, na Bélgica) a presença de dioxina cancerígena na carne de frango, carne de porco e carne bovina, os consumidores desenvolveram um ceticismo saudável em relação aquilo que os comunicados oficiais lhes dizem ser bom ou ruim para comer. Mesmo antes do recente furor, aproximadamente 25% dos britânicos manifestaram-se contra o alimento GM. Agora, segundo uma pesquisa recente da MORI, somente 1% deles acredita que ele ofereça qualquer tipo de benefício.
Alguns estrangeiros têm dificuldade de entender a veemência da reação européia. Certamente ninguém ficou mais surpreso do que a Monsanto, companhia norte-americana de ciências da vida, dona da patente de várias safras GM. Sua campanha publicitária de US$ 1,6 milhões na imprensa britânica no ano passado, para convencer os consumidores a respeito dos méritos da engenharia genética, teve exatamente o efeito oposto. Para o público britânico então com vago conhecimento sobre biotecnologia e os efeitos sobre o conteúdo de seus jantares congelados, o anúncio da Monsanto de que soja e milho reforçados estariam em breve no comércio ou num campo próximo a eles chegou como uma surpresa desagradável.
Esta diferença transatlântica destaca um aspecto intrigante do debate em geral. Mesmo enquanto pega fogo na Europa, nos Estados Unidos, onde três quartos das safras GM do mundo são cultivadas, quase não há discussão pública sobre o assunto. Existem pelo menos quatro explicações possíveis para isto. Primeiro, os norte-americanos podem ter uma relação mais positiva com a tecnologia em geral, e assim estão mais predispostos a aceitar sua versão biológica. Segundo, porque o país mantém seu coração agrícola separado das áreas rurais de lazer a preocupação com o efeito ambiental do alimento transgênico pode ser menos intensa. Terceiro, os americanos possuem um incentivo econômico mais forte que os europeus, já queque com freqüência são as suas companhias que produzem as sementes e os seus fazendeiros que as cultivam. E quarto, americanos podem já ter feito o acordo de paz com os alimentos GM depois de debater sua regulamentação no início dos anos 90.
Ou eles podem estar terrivelmente mal-informados. Segundo a mitologia urbana, é possível ouvir os turistas americanos em Londres surpresos ao ler na imprensa sobre 'alimentos Frankenstein' e agradecer aos céus que tais produtos não sejam vendidos em casa. Mas o mito reflete uma verdade. De acordo com uma pesquisa feita pelo International Food Information Council em Washington, DC, aproximadamente a metade dos entrevistados pensavam que os alimentos em suas cozinhas estavam livres da biotecnologia, quando na realidade quase 60% dos alimento processados são afetados. Bruce Silvergrade, do Centro para a Ciência no Interesse Público, um grupo sem fins lucrativos sediado em Washington, reconhece que essa ignorância emudeceu a discussão pública das safras GM nos EUA, pelo menos até agora.
A ignorância é compreensível, já que a longa lista de ingredientes e valores nutricionais que consta do rótulo de uma lata de feijão não há qualquer menção à modificação genética. Isto por causa de uma decisão de 1992 da Food and Drug Administration (FDA). A agência decidiu que, como um alimento GM não é mais tóxico, alergênico e é 'substancialmente similar' ao seu equivalente convencional, não precisa ser rotulado para mostrar o processo que o criou. Isso representa um claro contraste em relação à legislação sobre rotulagem introduzida em 1997 na UE, que exige que qualquer alimento deve ser registrado como GM se contiver resíduos de DNA ou proteína modificados.
É surpreendente que os Estados Unidos, país famoso pelo poder de seus consumidores, precise fornecer aos seus cidadãos menos direito à informação sobre alimentos do que os países europeus. Um número crescente de consumidores americanos também está chocado com esse paradoxo. Cerca de 500 mil firmaram uma petição, exigindo a rotulagem obrigatória dos alimentos GM, e o documento foi apresentado numa conferência na semana passada patrocinada pelas Mães em Defesa da Lei Natural, um grupo de lobistas que se opõe à engenharia genética. Enquanto isso, Andrew Kimbrell do Centro Internacional de Avaliação Tecnológica (CIAT) moveu uma ação judicial contra a FDA, que também exige a rotulagem.
Mas não é tão estranho como parece, uma vez que a FDA já exige que a segurança de muitos aditivos seja testada pelos produtores antes de chegar ao mercado. Da forma como estão as coisas, as companhias podem consultar a FDA, e com freqüência o fazem, antes de colocar no mercado um produto GM, mas elas não são obrigadas a proceder assim. As autoridades da UE, porém, querem que cada novo alimento seja submetido aos seus sistema de segurança alimentar e impacto ambiental
Poucos ativistas americanos esperam que preocupações sobre GM nos EUA atinjam o nível de exaltação da Grã-Bretanha. Em geral, os americanos têm muita fé nas suas agências reguladoras, especialmente na FDA, para mergulhar em pânico no estilo europeu. Mas as atividades de organizações como a CIAT não são as únicas novidades à vista. Quando, por exemplo, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) sugeriu, no ano passado, que as safras GM poderiam ser classificadas como orgânicas, foi obrigado a voltar atrás depois que 280 mil pessoas apresentaram queixas.
Desde que começou a controvérsia européia, os grupos ambientalistas como o Sierra Club retomaram o interesse. O governo está começando a reagir. Um grupo de funcionários do alto escalão tem-se reunido sob os auspícios do Conselho Econômico Nacional nos seis últimos meses para discutir a estratégia americana diante da agressividade européia. E no início deste mês, o Departamento de Agricultura anunciou a formação de uma comissão de consultoria formada por representantes do meio acadêmico, assim como do próprio setor e de grupos ligados ao interesse público para examinar o impacto social, científico e econômico da biotecnologia agrícola. Alguns grupos do setor, como os Produtores de Comestíveis dos EUA também preparam-se para o debate. Eles dizem que estão prontos para interromper a expansão do 'contágio' da Europa com campanhas públicas de conscientização sobre alimentos GM, apresentando cientistas e empresas para defender a tecnologia.
Eles têm boas razões para agir antes que seja tarde. Embora os executivos de empresas européias sejam reconhecidamente otimistas quanto às suas perspectivas, as reuniões entre eles têm sido 'um pouco tensas', segundo um observador do setor. Pudera. A Astra Zeneca, por exemplo, viu que na Inglaterra, as vendas de sua massa de tomate GM, que já foi mais popular do que a do concorrente habitual, estão caindo drasticamente desde fevereiro, quando a controvérsia da tornou-se pública. David Evans, diretor de pesquisa agroquímica da empresa, disse que esta poderá ter problemas para manter o fornecimento, já que o planejamento estratégico da empresa baseia-se no cultivo de tomate na Europa, e não na necessidade de continuar importando a massa da Califórnia.
O problema se agrava porque os maiores varejistas de alimentos da Inglaterra estão seguindo o mesmo caminho de seus colegas europeus - eles prometem retirar os ingredientes GM dos produtos que levam sua marca e de colocar no rótulo dos demais que eles possuem elementos transgênicos. Em resposta, a Unilever e a Nestlé, duas grandes indústrias de produtos alimentícios, anunciaram planos de abastecer as lojas com alimentos livres de produtos GM. Várias outras empresas do setor deixaram de fornecer produtos geneticamente modificados. Até onde isto vai é algo que dependerá da forçados comerciantes de grãos que abastecem a indústria, dos produtores, e das companhias de biotecnologia.
Embora a agitação européia possa incentivar o debate entre os consumidores americanos, a maioria dos produtores agrícolas dos EUA provavelmente permanecerá na defensiva. Eles foram rápidos na adoção dos GM, substituindo 55% da soja, 50% do algodão e 40% milho do país, desde 1996. Segundo Rosemarie Watkins, da American Farm Bureau Federation, 'o principal incentivo foi econômico'. Apesar de a maior produtividade não exercer grande atração sobre os fazendeiros do oeste, que enfrentam excedentes de produção e preços que atingiram o fundo do poço, a possibilidade de gastos menores com produtos químicos, com a queda na aplicação de pesticidas, é maissedutora.
Os problemas na Europa, porém, podem causar turbulências no mercado interno. Segundo Watkins, os produtores americanos de milho estão preocupados com a safra do final do ano. Cerca de 5% das plantações atuais são de variedades GM que ainda precisam a aprovação das autoridades da UE. Mas separar o milho cuja exportação está proibida das variedades aceitáveis não é fácil, apesar das campanhas educativas dirigidas aos produtores e das tentativas dos grandes traders, como a ADM, de desviar produtos não aprovados dos canais de exportação. A contaminação por grãos não aprovados pode prejudicar a exportação de toda a safra. Em 1998, os EUA enviaram o equivalente a US$ 200 milhões, embora seja menos de 1% da safra total, para a Europa. Neste ano, espera-se que não vá nada.
Tais problemas poderiam nem surgir se a 'preservação da identidade', a separação das variedades, fosse simples. Mas o sistema americano de manuseio de grãos é projetado para grandes volumes, não para os pequenos detalhes. Segundo Kim Nill, da Associação Americana de Soja, há dez pontos no percurso entre a fazenda e o navio, nos quais diferentes tipos de grãos são misturados deliberadamente, para aumentar sua qualidade. O preço final de algumas variedades, como o produzido organicamente ou a soja para tofu, especial para o Japão, depende de sua pureza. Estas pequenas safras podem ser mantidas em separado, mas isto tem um preço: os grãos para os japoneses são três vezes mais caros.
A criação de um sistema semelhante para as enormes quantidades de soja e milho que viajam pelos EUA praticamente dobraria o preço final das variedades convencionais, segundo um estudo encomendado pelo setor a Allan Buckwell do Wye College da Grã-Bretanha. Para as indústrias alimentícias, como aUnilever, significaria uma diferença de 25% sobre o custo final dos alimentos.
Não se sabe quem estaria disposto a pagar o preço. Com a reação provocada recentemente pelos alimentos GM, a transferência destes custos seria uma decisão impopular - supõe-se que a modificação genética deva contribuir para baixar os preços e não para elevá-los. É provável que quem terá de arcar com estes custos serão os intermediários. Os executivos da Unilever admitem que absorver os custos pode significar um certo desconforto a curto prazo, embora um ganho, a longo prazo, com a conquista da confiança dos consumidores de que os novos cultivares são, de fato, uma boa compra.
Algumas companhias já tentam montar operações que preservem a identidade dos grãos não modificados. Uma empresa já mergulhou de cabeça. A Protein Technologies International, parte da DuPont, criou um sistema de processamento diferente, da plantação até o produto final, para vender lecitina 'não GM'. Mas a companhia ainda tem dificuldades para vender produtos 'GM-free' à UE, que ainda não decidiu até que ponto eles precisam ser 'isentos' para ganhar o rótulo. Esta ambigüidade frustra também as autoridades americanas, que consideram as leis européias sobre a rotulagem dos produtos um tanto confusa na teoria e na prática, uma barreira técnica ao comércio. Elas ameaçam apresentar queixa à OMC. Mas como a UE nunca rejeitou um cultivar GM, as tensões não chegaram a uma guerra comercial - ainda.
Na Europa, a percepção do risco por parte do público ultrapassa de longe a percepção de possíveis benefícios da biotecnologia. Empresas e cientistas esperam que a próxima geração de alimentos GM, com óbvios benefícios para os consumidores, como um melhor sabor e teor nutritivo, acabe vencendo por seus próprios méritos. Entretanto, algumas se mostram menos confiantes do que outras. A aprovação da soja da DuPont, criada para aumentar a produção de óleo, xestá emperrada na UE, embora seja um bom exemplo do tipo de produção que o setor promete. Ganhar a confiança do público ficando cada dia mais difícil, e os produtos GM mais novos terão de ser impressionantes para poderem vingar. 'Estas empresas têm uma grande fé na tecnologia', diz Rod Stacey, consultor da Verdant Pertners. 'Elas se consideram o setor de semicondutores do século XXI'. Mas diante da enorme oposição do público, correm o risco de ter o mesmo destino de uma tecnologia muito diferente que décadas atrás parecia sofisticada e futurista, a energia nuclear.






