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Jornal TJ

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Quem tem medo dos alimentos transgênicos?

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Tomatoes In Mexico

Na on­da dos mo­vimen­tos po­pula­res, a mul­tidão ag­lo­mera­da al­gu­ma se­manas atrás na ru­ral Es­sex foi um mo­delo de bi­odi­ver­si­vida­de: ha­via tur­bantes e ca­mise­tas, ad­vo­gados e vi­ajan­tes 'new-age', tran­cinhas ju­venis e bar­bas gri­sal­has.

O que os unia era a opo­sição a uma tec­no­logia que, à pri­me­ira vis­ta, de­veria ser vis­ta co­mo al­go bom: a pro­dução de saf­ras sob me­dida at­ravés da ma­nipu­lação genéti­ca di­reta das plan­tas, em vez de con­fi­ar nos pro­ces­sos an­ti­gos e aci­den­ta­is de ela­boração de se­men­tes híbri­das e de se­leção de ge­nes es­pecífi­cos at­ravés do cul­ti­vo.

A mo­difi­cação genéti­ca é uma ma­ne­ira de in­se­rir ge­nes que con­fe­rem às plan­tas re­sistência às pra­gas, fun­gos e vírus que se­ri­am no­civos ou exi­giri­am a ap­li­cação de ag­rotóxi­cos. Os or­ga­nis­mos ge­neti­camen­te mo­difi­cados (que estão se po­pula­rizan­do pe­la sig­la GM, de 'ge­neti­cal­ly mo­difi­ed') também po­dem ser re­sis­tentes aos pes­ti­cidas, sig­ni­fican­do que as er­vas da­nin­has po­dem ser fa­cil­mente ex­termi­nadas, in­formou a The Eco­nomist. Tu­do is­so ele­va os ren­di­men­tos e de­ve (ao me­nos num liv­re mer­ca­do, o que é ra­ro na ag­ri­cul­tu­ra) re­duzir preços. No fu­turo, es­pe­ram os de­fen­so­res da no­va tec­no­logia, ela po­derá também ag­re­gar va­lor nut­ri­ci­onal às saf­ras.

Ain­da as­sim, ape­sar des­tes be­nefíci­os, os pro­tes­tos cont­ra a mo­difi­cação genéti­ca estão aumen­tando, es­pe­ci­al­mente, mas não ape­nas, na Euro­pa. As saf­ras GM são im­po­pula­res e mu­itas pes­so­as simp­les­mente as ode­iam. 'Min­ha úni­ca ob­jeção aos ali­men­tos transgêni­cos é que eles são in­se­guros, in­de­seja­dos e des­ne­cessári­os', dis­se um ma­nifes­tante de Es­sex.

E, apa­ren­te­men­te, ago­ra ine­vitáve­is. Em 1990 não ha­via saf­ras co­mer­ci­ais GM no Oci­den­te. Ao fi­nal des­te ano, elas ocu­parão uma área es­ti­mada de 40 milhões de hec­ta­res, se­gun­do Cli­ve Ja­mes, di­retor do in­terna­ti­onal Ser­vi­ce for the Ac­qui­siti­on of Ag­ri-bi­otech App­li­cati­ons. Mu­itas das plan­tações transgêni­cas (nem to­das pa­ra ali­men­tação) são de lar­ga es­ca­la. Al­gu­mas, es­pe­ci­al­mente de uma va­ri­eda­de de so­ja re­sis­tente à ação dos her­bi­cidas, são tão po­pula­res ent­re os fa­zen­de­iros que está fi­can­do ca­da vez ma­is difícil en­cont­rar a se­men­te não GM.

Até ago­ra, pa­ra uti­lizá-la, as fab­ri­can­tes de ali­men­tos pre­cisam re­cor­rer aos es­to­qu­es an­ti­gos ou out­ras fon­tes, co­mo o Bra­sil. Mas es­se país também anun­ci­ou re­cen­te­men­te que per­mi­tirá a co­mer­ci­ali­zação de cer­tas saf­ras transgêni­cas. Des­ta for­ma, une-se aos out­ros prin­ci­pa­is pro­duto­res que con­verte­ram-se à mo­difi­cação genéti­ca: Es­ta­dos Uni­dos, Ar­genti­na, Austrália, Ca­nadá, Chi­na e Méxi­co.

Na Euro­pa, con­tu­do, as co­isas são di­feren­tes. Em­bo­ra se façam ex­pe­riênci­as de cam­po em pe­qu­ena es­ca­la em to­dos os es­ta­dos memb­ros da União Européia, só a Es­panha pos­sui plan­tações ex­tensas de mil­ho GM (a Euro­pa semp­re im­portou so­ja). Co­mo pre­venção, a lei per­mi­te que os países re­je­item col­he­itas GM já ap­ro­vadas pe­la Co­missão Européia se ti­verem no­vas evidênci­as de ris­co à saúde; re­cen­te­men­te a França, Áust­ria e Lu­xem­burgo exer­ci­taram es­te di­re­ito e re­je­ita­ram cer­tos ti­pos de mil­ho e óleo de se­men­te de col­za transgêni­cos.Mes­mo que no­ve va­ri­eda­des de saf­ras GM ten­ham si­do im­porta­das ou ap­ro­vadas pa­ra o plan­tio co­mer­ci­al na UE des­de 1994, há tan­ta polêmi­ca em tor­no dos transgêni­cos que no­vas espéci­es não fo­ram adi­ci­ona­das à lis­ta des­de o fi­nal do ano pas­sa­do.

A re­jeição ofi­ci­al em boa par­te da Euro­pa é igu­ala­da pe­la re­sistência não ofi­ci­al por par­te dos con­su­mido­res. A ob­jeções comp­re­en­dem três ale­gações prin­ci­pa­is. A pri­me­ira ra­ci­oci­na que sen­do a mo­difi­cação genéti­ca an­ti­natu­ral é ine­ren­te­men­te de­testável. A se­gun­da afir­ma que o ali­men­to é pe­rigo­so. E a ter­ce­ira a acu­sa de pre­judi­car o am­bi­en­te.

Os de­fen­so­res con­testam o pri­me­iro des­tes ar­gu­men­tos ob­servan­do que to­das as saf­ras são an­ti­natu­ra­is. Se não fos­sem, as pes­so­as es­ta­ri­am fa­zen­do pão de matéri­as pa­reci­das com gra­ma e co­men­do sa­ladas pre­para­das a par­tir de er­vas da­nin­has. O se­gun­do ar­gu­men­to cai, também. Nen­hum tes­te ci­en­ti­fico re­con­he­cido most­rou o me­nor si­nal de que os ali­men­tos transgêni­cos en­cont­ra­dos nas pra­tele­iras con­tenham ele­men­tos tóxi­cos (um ex­pe­rimen­to de gran­de di­vul­gação re­ali­zado em ba­tatas no Re­ino Uni­do foi to­tal­mente de­sac­re­dita­do). Afi­nal, o pro­ces­so fun­ci­ona pe­la trans­ferência de ge­nes iso­lados, de­sig­na­dos pa­ra exe­cutar ta­refas par­ti­cula­res, de uma espécie a out­ra. Se os pro­dutos des­tes ge­nes fo­rem ino­fen­si­vos (al­go que po­de e foi tes­ta­do) é difícil ima­ginar co­mo a saúde hu­mana po­de ser pre­judi­cada.

A ter­ce­ira ob­jeção é ma­is con­sisten­te, em­bo­ra ha­jam po­ucos da­dos a res­pe­ito. O possível da­no am­bi­en­tal inc­lui a 'fu­ga' de ge­nes trans­plan­ta­dos pa­ra espéci­es sel­va­gens, lhes con­fe­rin­do prop­ri­eda­des in­se­tici­das ou de re­sistência aos her­bi­cidas. Out­ro ex­pe­rimen­to de amp­la di­vul­gação, sob­re as la­gar­tas da bor­bo­leta Mo­nar­ca, re­velou um ris­co po­ten­ci­al pa­ra os in­se­tos não-no­civos que ali­men­tam-se do pólen de uma plan­tação com o ge­ne in­se­tici­da. Há também o ris­co de que as saf­ras que con­tenham in­se­tici­das tor­narão as própri­as pra­gas ma­is re­sis­tentes a eles.

É pre­cisa­men­te pa­ra tes­tar es­tes ris­cos que as ex­pe­riênci­as de cam­po, que at­ra­em tan­tos gru­pos de pro­tes­to, estão sen­do re­ali­zadas. Mas se for comp­ro­vado o da­no am­bi­en­tal, exis­tem do­is ar­gu­men­tos pa­ra equi­lib­rar. O pri­me­iro é que a ag­ri­cul­tu­ra é, por de­finição, dest­ru­ido­ra do am­bi­en­te na­tural. Ha­veria um sério prob­le­ma ape­nas se as saf­ras GM fos­sem pi­ores do que as atu­ais práti­cas agríco­las. O se­gun­do é que ao me­nos al­gu­mas mo­difi­cações genéti­cas de­vem aju­dar ma­is do que pre­judi­car o am­bi­en­te. Se as saf­ras contêm se­us própri­os in­se­tici­das, a pul­ve­rização tor­na-se des­ne­cessária. Is­to sig­ni­fica que os in­se­tos não vi­sados, inc­lu­in­do as bor­bo­letas, de­vem es­tar nu­ma con­dição mel­hor.

Na­da dis­to, con­tu­do, pa­rece acal­mar o públi­co - par­ti­cular­mente na Euro­pa. A en­genha­ria genéti­ca at­ra­iu ati­vis­tas de mu­itas ca­usas di­feren­tes, do Gre­en­pe­ace ao Chris­ti­an Aid, em gran­de par­te por­que es­ta qu­estão en­ca­ixa-se per­fe­ita­men­te em out­ras agen­das. Aque­les que eram cont­ra, por exemp­lo, a in­dust­ri­ali­zação da ag­ri­cul­tu­ra tra­dici­onal ou do cont­ro­le cor­po­rati­vo da ag­ri­cul­tu­ra ou mes­mo com­ba­ti­am a cons­trução de est­ra­das em áre­as ru­ra­is, já es­ta­vam lu­tan­do por se­us princípi­os an­tes das saf­ras GM. Pa­ra o con­su­midor médio, con­tu­do, as ob­jeções aos ali­men­tos GM ba­se­iam-se prin­ci­pal­mente na sus­pe­ita de que eles irão, a lon­go pra­zo, pro­var ser in­sa­lub­res.

Po­liti­camen­te, ta­is te­mores são comp­re­ensíve­is. Os go­ver­nos euro­pe­us pos­su­em um re­gist­ro ter­ri­vel­mente ru­im de fal­ta de pro­vas, com da­dos ci­entífi­cos 'in­conve­ni­en­tes', ou de simp­les­mente men­tir sob­re a se­gurança do ali­men­to. De­po­is das di­ver­sas ex­pe­riênci­as com a EEB (do­ença da va­ca lo­uca), a car­ne con­ta­mina­da com bactéri­as e (ma­is re­cen­te, na Bélgi­ca) a pre­sença de di­oxi­na can­ceríge­na na car­ne de fran­go, car­ne de por­co e car­ne bo­vina, os con­su­mido­res de­sen­volve­ram um ce­ticis­mo sa­udável em re­lação aqui­lo que os co­muni­cados ofi­ci­ais lhes di­zem ser bom ou ru­im pa­ra co­mer. Mes­mo an­tes do re­cen­te fu­ror, ap­ro­xima­damen­te 25% dos britâni­cos ma­nifes­ta­ram-se cont­ra o ali­men­to GM. Ago­ra, se­gun­do uma pes­qui­sa re­cen­te da MO­RI, so­men­te 1% de­les ac­re­dita que ele ofe­reça qu­al­qu­er ti­po de be­nefício.

Al­guns est­ran­ge­iros têm di­ficul­da­de de en­tender a ve­emência da reação européia. Cer­ta­men­te nin­guém fi­cou ma­is surp­re­so do que a Mon­santo, com­panhia nor­te-ame­rica­na de ciênci­as da vi­da, do­na da pa­ten­te de vári­as saf­ras GM. Sua cam­panha pub­li­citária de US$ 1,6 milhões na imp­ren­sa britâni­ca no ano pas­sa­do, pa­ra con­vencer os con­su­mido­res a res­pe­ito dos méri­tos da en­genha­ria genéti­ca, te­ve exa­tamen­te o efe­ito opos­to. Pa­ra o públi­co britâni­co então com va­go con­he­cimen­to sob­re bi­otec­no­logia e os efe­itos sob­re o con­teúdo de se­us jan­ta­res con­ge­lados, o anúncio da Mon­santo de que so­ja e mil­ho re­forçados es­ta­ri­am em bre­ve no comércio ou num cam­po próxi­mo a eles che­gou co­mo uma surp­re­sa de­sag­radável.

Es­ta di­ferença tran­satlânti­ca des­ta­ca um as­pecto int­ri­gan­te do de­bate em ge­ral. Mes­mo en­qu­anto pe­ga fo­go na Euro­pa, nos Es­ta­dos Uni­dos, on­de três qu­ar­tos das saf­ras GM do mun­do são cul­ti­vadas, qua­se não há dis­cussão públi­ca sob­re o as­sunto. Exis­tem pe­lo me­nos qu­at­ro exp­li­cações possíve­is pa­ra is­to. Pri­me­iro, os nor­te-ame­rica­nos po­dem ter uma re­lação ma­is po­siti­va com a tec­no­logia em ge­ral, e as­sim estão ma­is pre­dis­postos a ace­itar sua versão bi­ológi­ca. Se­gun­do, por­que o país mantém seu co­ração agríco­la se­para­do das áre­as ru­ra­is de la­zer a pre­ocu­pação com o efe­ito am­bi­en­tal do ali­men­to transgêni­co po­de ser me­nos in­tensa. Ter­ce­iro, os ame­rica­nos pos­su­em um in­centi­vo econômi­co ma­is for­te que os euro­pe­us, já que­que com freqüência são as su­as com­panhi­as que pro­duzem as se­men­tes e os se­us fa­zen­de­iros que as cul­ti­vam. E qu­ar­to, ame­rica­nos po­dem já ter fe­ito o acor­do de paz com os ali­men­tos GM de­po­is de de­bater sua re­gula­men­tação no início dos anos 90.

Ou eles po­dem es­tar ter­ri­vel­mente mal-in­forma­dos. Se­gun­do a mi­tolo­gia ur­ba­na, é possível ouvir os tu­ris­tas ame­rica­nos em Lond­res surp­re­sos ao ler na imp­ren­sa sob­re 'ali­men­tos Fran­kens­te­in' e ag­ra­decer aos céus que ta­is pro­dutos não se­jam ven­di­dos em ca­sa. Mas o mi­to ref­le­te uma ver­da­de. De acor­do com uma pes­qui­sa fe­ita pe­lo In­terna­ti­onal Fo­od In­forma­ti­on Co­un­cil em Wa­shing­ton, DC, ap­ro­xima­damen­te a me­tade dos ent­re­vis­ta­dos pen­sa­vam que os ali­men­tos em su­as co­zin­has es­ta­vam liv­res da bi­otec­no­logia, qu­an­do na re­ali­dade qua­se 60% dos ali­men­to pro­ces­sa­dos são afe­tados. Bru­ce Sil­verg­ra­de, do Cent­ro pa­ra a Ciência no In­te­res­se Públi­co, um gru­po sem fins luc­ra­tivos se­di­ado em Wa­shing­ton, re­con­he­ce que es­sa ig­norância emu­deceu a dis­cussão públi­ca das saf­ras GM nos EUA, pe­lo me­nos até ago­ra.

A ig­norância é comp­re­ensível, já que a lon­ga lis­ta de ing­re­di­en­tes e va­lores nut­ri­ci­onais que cons­ta do rótu­lo de uma la­ta de fe­ijão não há qu­al­qu­er menção à mo­difi­cação genéti­ca. Is­to por ca­usa de uma de­cisão de 1992 da Fo­od and Drug Ad­mi­nist­ra­ti­on (FDA). A agência de­cidiu que, co­mo um ali­men­to GM não é ma­is tóxi­co, alergêni­co e é 'subs­tan­ci­al­mente si­milar' ao seu equi­valen­te con­venci­onal, não pre­cisa ser ro­tula­do pa­ra most­rar o pro­ces­so que o cri­ou. Is­so rep­re­sen­ta um cla­ro cont­ras­te em re­lação à le­gis­lação sob­re ro­tula­gem int­ro­duzi­da em 1997 na UE, que exi­ge que qu­al­qu­er ali­men­to de­ve ser re­gist­ra­do co­mo GM se con­ti­ver resídu­os de DNA ou pro­teína mo­difi­cados.

É surp­re­en­dente que os Es­ta­dos Uni­dos, país fa­moso pe­lo po­der de se­us con­su­mido­res, pre­cise for­ne­cer aos se­us ci­dadãos me­nos di­re­ito à in­formação sob­re ali­men­tos do que os países euro­pe­us. Um núme­ro cres­cente de con­su­mido­res ame­rica­nos também está cho­cado com es­se pa­rado­xo. Cer­ca de 500 mil fir­ma­ram uma pe­tição, exi­gin­do a ro­tula­gem ob­ri­gatória dos ali­men­tos GM, e o do­cumen­to foi ap­re­sen­ta­do nu­ma con­ferência na se­mana pas­sa­da pat­ro­cina­da pe­las Mães em De­fesa da Lei Na­tural, um gru­po de lo­bis­tas que se opõe à en­genha­ria genéti­ca. En­qu­anto is­so, And­rew Kimb­rell do Cent­ro In­terna­ci­onal de Ava­liação Tec­nológi­ca (CI­AT) mo­veu uma ação ju­dici­al cont­ra a FDA, que também exi­ge a ro­tula­gem.

Mas não é tão est­ran­ho co­mo pa­rece, uma vez que a FDA já exi­ge que a se­gurança de mu­itos adi­tivos se­ja tes­ta­da pe­los pro­duto­res an­tes de che­gar ao mer­ca­do. Da for­ma co­mo estão as co­isas, as com­panhi­as po­dem con­sultar a FDA, e com freqüência o fa­zem, an­tes de co­locar no mer­ca­do um pro­duto GM, mas elas não são ob­ri­gadas a pro­ceder as­sim. As auto­rida­des da UE, porém, que­rem que ca­da no­vo ali­men­to se­ja sub­me­tido aos se­us sis­te­ma de se­gurança ali­men­tar e im­pacto am­bi­en­tal

Po­ucos ati­vis­tas ame­rica­nos es­pe­ram que pre­ocu­pações sob­re GM nos EUA atin­jam o nível de exal­tação da Grã-Bre­tan­ha. Em ge­ral, os ame­rica­nos têm mu­ita fé nas su­as agênci­as re­gula­doras, es­pe­ci­al­mente na FDA, pa­ra mer­gulhar em pâni­co no es­ti­lo euro­peu. Mas as ati­vida­des de or­ga­nizações co­mo a CI­AT não são as úni­cas no­vida­des à vis­ta. Qu­an­do, por exemp­lo, o De­par­ta­men­to de Ag­ri­cul­tu­ra dos Es­ta­dos Uni­dos (US­DA) su­geriu, no ano pas­sa­do, que as saf­ras GM po­deri­am ser clas­si­fica­das co­mo orgâni­cas, foi ob­ri­gado a vol­tar atrás de­po­is que 280 mil pes­so­as ap­re­sen­ta­ram que­ixas.

Des­de que co­meçou a cont­rovérsia européia, os gru­pos am­bi­en­ta­lis­tas co­mo o Si­er­ra Club re­toma­ram o in­te­res­se. O go­ver­no está co­meçan­do a re­agir. Um gru­po de fun­ci­onári­os do al­to es­calão tem-se re­uni­do sob os auspíci­os do Con­selho Econômi­co Na­ci­onal nos se­is últi­mos me­ses pa­ra dis­cu­tir a est­ratégia ame­rica­na di­an­te da ag­ressi­vida­de européia. E no início des­te mês, o De­par­ta­men­to de Ag­ri­cul­tu­ra anun­ci­ou a for­mação de uma co­missão de con­sulto­ria for­ma­da por rep­re­sen­tantes do me­io acadêmi­co, as­sim co­mo do próprio se­tor e de gru­pos li­gados ao in­te­res­se públi­co pa­ra exa­minar o im­pacto so­ci­al, ci­entífi­co e econômi­co da bi­otec­no­logia agríco­la. Al­guns gru­pos do se­tor, co­mo os Pro­duto­res de Co­mestíve­is dos EUA também pre­param-se pa­ra o de­bate. Eles di­zem que estão pron­tos pa­ra in­terrom­per a ex­pansão do 'contágio' da Euro­pa com cam­panhas públi­cas de cons­ci­en­ti­zação sob­re ali­men­tos GM, ap­re­sen­tando ci­en­tistas e emp­re­sas pa­ra de­fen­der a tec­no­logia.

Eles têm bo­as razões pa­ra agir an­tes que se­ja tar­de. Em­bo­ra os exe­cuti­vos de emp­re­sas européias se­jam re­con­he­cida­men­te oti­mis­tas qu­an­to às su­as pers­pec­ti­vas, as re­uniões ent­re eles têm si­do 'um po­uco ten­sas', se­gun­do um ob­serva­dor do se­tor. Pu­dera. A Ast­ra Ze­neca, por exemp­lo, viu que na Ing­la­ter­ra, as ven­das de sua mas­sa de to­mate GM, que já foi ma­is po­pular do que a do con­corren­te ha­bitu­al, estão ca­in­do dras­ti­camen­te des­de fe­vere­iro, qu­an­do a cont­rovérsia da tor­nou-se públi­ca. Da­vid Evans, di­retor de pes­qui­sa ag­ro­quími­ca da emp­re­sa, dis­se que es­ta po­derá ter prob­le­mas pa­ra man­ter o for­ne­cimen­to, já que o pla­neja­men­to est­ratégi­co da emp­re­sa ba­se­ia-se no cul­ti­vo de to­mate na Euro­pa, e não na ne­ces­si­dade de con­ti­nu­ar im­portan­do a mas­sa da Ca­lifórnia.

O prob­le­ma se ag­ra­va por­que os ma­iores va­rejis­tas de ali­men­tos da Ing­la­ter­ra estão se­gu­in­do o mes­mo ca­min­ho de se­us co­legas euro­pe­us - eles pro­metem re­tirar os ing­re­di­en­tes GM dos pro­dutos que le­vam sua mar­ca e de co­locar no rótu­lo dos de­ma­is que eles pos­su­em ele­men­tos transgêni­cos. Em res­posta, a Uni­lever e a Nestlé, du­as gran­des indústri­as de pro­dutos ali­mentíci­os, anun­ci­aram pla­nos de abas­te­cer as lo­jas com ali­men­tos liv­res de pro­dutos GM. Vári­as out­ras emp­re­sas do se­tor de­ixa­ram de for­ne­cer pro­dutos ge­neti­camen­te mo­difi­cados. Até on­de is­to vai é al­go que de­pen­derá da forçados co­mer­ci­an­tes de grãos que abas­te­cem a indústria, dos pro­duto­res, e das com­panhi­as de bi­otec­no­logia.

Em­bo­ra a agi­tação européia pos­sa in­centi­var o de­bate ent­re os con­su­mido­res ame­rica­nos, a ma­ioria dos pro­duto­res agríco­las dos EUA pro­vavel­mente per­ma­necerá na de­fen­si­va. Eles fo­ram rápi­dos na adoção dos GM, subs­ti­tu­in­do 55% da so­ja, 50% do al­godão e 40% mil­ho do país, des­de 1996. Se­gun­do Ro­sema­rie Wat­kins, da Ame­rican Farm Bu­re­au Fe­dera­ti­on, 'o prin­ci­pal in­centi­vo foi econômi­co'. Ape­sar de a ma­ior pro­duti­vida­de não exer­cer gran­de at­ração sob­re os fa­zen­de­iros do oes­te, que enf­ren­tam ex­ce­den­tes de pro­dução e preços que atin­gi­ram o fun­do do poço, a pos­si­bili­dade de gas­tos me­nores com pro­dutos quími­cos, com a que­da na ap­li­cação de pes­ti­cidas, é ma­is­se­duto­ra.

Os prob­le­mas na Euro­pa, porém, po­dem ca­usar tur­bulênci­as no mer­ca­do in­terno. Se­gun­do Wat­kins, os pro­duto­res ame­rica­nos de mil­ho estão pre­ocu­pados com a saf­ra do fi­nal do ano. Cer­ca de 5% das plan­tações atu­ais são de va­ri­eda­des GM que ain­da pre­cisam a ap­ro­vação das auto­rida­des da UE. Mas se­parar o mil­ho cu­ja ex­portação está pro­ibi­da das va­ri­eda­des ace­itáve­is não é fácil, ape­sar das cam­panhas edu­cati­vas di­rigi­das aos pro­duto­res e das ten­ta­tivas dos gran­des tra­ders, co­mo a ADM, de des­vi­ar pro­dutos não ap­ro­vados dos ca­na­is de ex­portação. A con­ta­minação por grãos não ap­ro­vados po­de pre­judi­car a ex­portação de to­da a saf­ra. Em 1998, os EUA en­vi­aram o equi­valen­te a US$ 200 milhões, em­bo­ra se­ja me­nos de 1% da saf­ra to­tal, pa­ra a Euro­pa. Nes­te ano, es­pe­ra-se que não vá na­da.

Ta­is prob­le­mas po­deri­am nem sur­gir se a 'pre­ser­vação da iden­ti­dade', a se­paração das va­ri­eda­des, fos­se simp­les. Mas o sis­te­ma ame­rica­no de ma­nuse­io de grãos é pro­jeta­do pa­ra gran­des vo­lumes, não pa­ra os pe­qu­enos de­tal­hes. Se­gun­do Kim Nill, da As­so­ciação Ame­rica­na de So­ja, há dez pon­tos no per­curso ent­re a fa­zen­da e o na­vio, nos qua­is di­feren­tes ti­pos de grãos são mis­tu­rados de­libe­rada­men­te, pa­ra aumen­tar sua qua­lida­de. O preço fi­nal de al­gu­mas va­ri­eda­des, co­mo o pro­duzi­do or­ga­nica­men­te ou a so­ja pa­ra to­fu, es­pe­ci­al pa­ra o Japão, de­pen­de de sua pu­reza. Es­tas pe­qu­enas saf­ras po­dem ser man­ti­das em se­para­do, mas is­to tem um preço: os grãos pa­ra os ja­pone­ses são três ve­zes ma­is ca­ros.

A criação de um sis­te­ma se­mel­hante pa­ra as enor­mes qu­an­ti­dades de so­ja e mil­ho que vi­ajam pe­los EUA pra­tica­men­te dob­ra­ria o preço fi­nal das va­ri­eda­des con­venci­onais, se­gun­do um es­tu­do en­co­men­da­do pe­lo se­tor a Al­lan Buck­well do Wye Col­le­ge da Grã-Bre­tan­ha. Pa­ra as indústri­as ali­mentíci­as, co­mo aUni­lever, sig­ni­fica­ria uma di­ferença de 25% sob­re o cus­to fi­nal dos ali­men­tos.

Não se sa­be qu­em es­ta­ria dis­posto a pa­gar o preço. Com a reação pro­voca­da re­cen­te­men­te pe­los ali­men­tos GM, a trans­ferência des­tes cus­tos se­ria uma de­cisão im­po­pular - supõe-se que a mo­difi­cação genéti­ca de­va cont­ri­bu­ir pa­ra ba­ixar os preços e não pa­ra elevá-los. É provável que qu­em terá de ar­car com es­tes cus­tos serão os in­terme­diári­os. Os exe­cuti­vos da Uni­lever ad­mi­tem que ab­sorver os cus­tos po­de sig­ni­ficar um cer­to des­confor­to a cur­to pra­zo, em­bo­ra um gan­ho, a lon­go pra­zo, com a con­qu­ista da con­fi­ança dos con­su­mido­res de que os no­vos cul­ti­vares são, de fa­to, uma boa comp­ra.

Al­gu­mas com­panhi­as já ten­tam mon­tar ope­rações que pre­ser­vem a iden­ti­dade dos grãos não mo­difi­cados. Uma emp­re­sa já mer­gulhou de ca­beça. A Pro­te­in Tech­no­logi­es In­terna­ti­onal, par­te da Du­Pont, cri­ou um sis­te­ma de pro­ces­sa­men­to di­feren­te, da plan­tação até o pro­duto fi­nal, pa­ra ven­der le­citi­na 'não GM'. Mas a com­panhia ain­da tem di­ficul­da­des pa­ra ven­der pro­dutos 'GM-free' à UE, que ain­da não de­cidiu até que pon­to eles pre­cisam ser 'isen­tos' pa­ra gan­har o rótu­lo. Es­ta am­bigüida­de frust­ra também as auto­rida­des ame­rica­nas, que con­si­deram as le­is européias sob­re a ro­tula­gem dos pro­dutos um tan­to con­fu­sa na te­oria e na práti­ca, uma bar­re­ira técni­ca ao comércio. Elas ameaçam ap­re­sen­tar que­ixa à OMC. Mas co­mo a UE nun­ca re­je­itou um cul­ti­var GM, as tensões não che­garam a uma gu­er­ra co­mer­ci­al - ain­da.

Na Euro­pa, a per­cepção do ris­co por par­te do públi­co ult­ra­pas­sa de lon­ge a per­cepção de possíve­is be­nefíci­os da bi­otec­no­logia. Emp­re­sas e ci­en­tistas es­pe­ram que a próxi­ma ge­ração de ali­men­tos GM, com óbvi­os be­nefíci­os pa­ra os con­su­mido­res, co­mo um mel­hor sa­bor e te­or nut­ri­tivo, aca­be ven­cendo por se­us própri­os méri­tos. Ent­re­tan­to, al­gu­mas se most­ram me­nos con­fi­an­tes do que out­ras. A ap­ro­vação da so­ja da Du­Pont, cri­ada pa­ra aumen­tar a pro­dução de óleo, xestá em­perra­da na UE, em­bo­ra se­ja um bom exemp­lo do ti­po de pro­dução que o se­tor pro­mete. Gan­har a con­fi­ança do públi­co fi­can­do ca­da dia ma­is difícil, e os pro­dutos GM ma­is no­vos terão de ser imp­res­si­onan­tes pa­ra po­derem vin­gar. 'Es­tas emp­re­sas têm uma gran­de fé na tec­no­logia', diz Rod Sta­cey, con­sultor da Ver­dant Pert­ners. 'Elas se con­si­deram o se­tor de se­micon­du­tores do sécu­lo XXI'. Mas di­an­te da enor­me opo­sição do públi­co, cor­rem o ris­co de ter o mes­mo des­ti­no de uma tec­no­logia mu­ito di­feren­te que déca­das atrás pa­recia so­fis­ti­cada e fu­turis­ta, a ener­gia nuc­le­ar.

Última atualização ( Sex, 14 de Maio de 2010 17:49 )  

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